Os Carvoeiros.

“Era dia a riba, dia a baixo; dia a riba pró fazer, dia a baixo pró bender”

Falar de Riba de Mouro e não falar de Carvoeiros, é quase impossível. Aliás, os ribamourenses sempre foram conhecidos, no concelho de Monção, por carvoeiros. Eram e ainda são assim chamados. E para quem não andou ao carvão, ser carvoeiro é só mesmo ser de Riba de Mouro, mas para quem andou, é muito mais do que isso. Só sabe quem andou “ó carbôn”; quem, às duas da manhã, saía para o monte com uma côdea de pão, num saco, e descia, no dia seguinte, à noitinha, com a bocadela de pão no estômago e o carvão na albarda, em cima do burro; quem, depois, dormia umas horas e, às duas da manhã, pegava no burro e descia à vila de “Mençôn” para vender o fruto do trabalho. “Era dia a riba, dia a baixo; dia a riba pró fazer, dia a baixo pró bender”. Assim se dizia dos carvoeiros e assim era a sua vida. A maioria era do lugar da Corga, embora também os houvesse da Gateira e um ou outro espalhado por outros lugares.

 

Cada família tinha um burro (jumento ou meigueiro) ou uma mula. Era essa a sua maior riqueza, o seu maior investimento, por ser o único meio de transporte do carvão. Não é à toa que o burro do carvoeiro faz parte do imaginário coletivo as gentes de Riba de Mouro.

 

Os clientes, na vila, eram certos. Cada carvoeiro tinha os seus. Vendia-se para os restaurantes, tavernas, casas particulares e, também, para o comboio. A CP era, sem dúvida, o melhor cliente dos carvoeiros. Ou seja, Riba de Mouro teve, durante muito anos, uma das maiores, se não a maior, indústria do concelho.

Como se fazia o carvão?

O melhor carvão era o de urze, porque era mais duro e rendia mais. Era, também, o mais caro, por ser o mais procurado. “Íamos todos juntos por í pra riba e cando tchigábamos ó monte, cada família xeparaba-xe pra dar largueza pra todos. Co’ a picaranha, fazíamos um grande buraco (a “buraca”), uha leira (rego) e unha eira. Metíamos a urze (raíz) na buraca e punhamo-la a arder. Esperaba-xe que queimaxe e, cando estibexe pronto, arrastábamo-lo c’o lareiro até à leira. Ale, apagábamo-lo c’uha baxoira de urze ou c’unha pouca de terra. Depois, fazíamos outra carga e, cando tibêxemosque tchigaxe, carregábamos o burro e bínhamos por í pra baixo. Era um bida muito dura que nun me deixou grandes xouxades”, D. Pureza, do lugar da Gateira.

E dormir?

Os mais velhos não dormiam porque, afinal, estavam a trabalhar. As crianças dormiam apenas um pouco. Os carvoeiros não tinham campos, não eram lavradores. Por isso, os mantimentos para a mula ou burro tinham de ser comprados aos lavradores da freguesia (principalmente, em Cavenca). Compravam um alqueire de milho, de cada vez. Em anos de fraca colheita, era grande o problema, porque os lavradores não tinham para vender.

 

Descubra mais no livro “OS DE LÁ DE RIBA – Os Saberes e o Linguajar de um Povo” (2021), de Aida Barreiros & Maria Alves.

Lenda

Lenda “O Carvoeiro”

No tempo em que os carvoeiros vinham à Vila de Monção, vender o seu produto, aproveitavam para carregar, nas suas mulas e burros, outros produtos de préstimo para as pessoas. Acontece que, entre os moradores da vila, estes homens eram, frequentemente, brindados com brincadeiras e partidas de mau gosto, porque julgavam-nos ingénuos ou ignorantes.

Um dia, vinha para a vila o carvoeiro Zé Preto, com o seu burro carregado de carvão. O burro progredia com dificuldade, não só porque a carga era pesada, mas também, porque as moscas não o largavam. Ao passar a Valinha, um homem que morava ali, junto ao caminho, querendo brincar com Zé Preto, pediu se lhe podia arranjar um quilo de moscas!

– Arranjo, sim senhor!

Respondeu sem demoras o Zé. Parou o burro e começou a apanhar as moscas que pousavam no pobre do animal, aproveitando até as que estavam nos burros dos amigos que por ali passavam, juntando o tal quilo de moscas que lhe encomendavam. Encomenda pedida, encomenda arranjada, encomenda entregue:

– Aqui tem o que pediu, amigo!

Mas o homem, sentando-se numa pedra que estava mesmo junto ao caminho, começou a apartar as moscas, depois de uma olhadela atenta, seguida de uma breve pausa:

– Esta não é mosca, é mosco! Este é mosco…, este é mosco…, etc., etc. 

Não deixava o homem nada da parte que era suposto ser das moscas, para depois dizer que não pagava a encomenda que pedira. Zé Preto bem controlou os nervos para não desancar uma grande surra no esperto do homem. Mas não ficava pela demora. 

Aproximou-se o natal e havia que fazer os doces da ceia festiva. O tal fulano da Valinha encomendou ao Zé Preto um quartilho de mel para a mulher fazer rabanadas. Tinha chegado a ocasião da vingança! Encomenda é encomenda. Lá trouxe o quartilho de mel, mas não sem antes ter metido no frasco um pouco de merda de cão no fundo do frasco. Quando foi à vila, passou pela casa do tal homem para entregar a encomenda. Este, quando a recebeu, sentiu um cheiro que não era, propriamente, aquele a que estava habituado quando engolia umas colheres de mel para os resfriados.

- Mas que raio me trouxeste tu? Isto é mel ou é aquilo que estou a pensar?

O espertalhão nem coragem tinha para mencionar o que via no fundo do frasco, tal era o nojo que sentia.

- Então vossemecê “estremava” os “moscos” das moscas e não “estrema” o mel?

Lembrado da partida que fizera ao carvoeiro no passado, o homem da Valinha nem ousou ripostar. Ficou com o preparado, prometendo a si mesmo nunca mais repetir a brincadeira com o Zé Preto.